Não podemos deixar de tecer alguns comentários sobre o artigo “Parlamento mais bonito - As excelentíssimas senhoras deputadas”, da edição online do Jornal “A União”, da autoria de Pedro Ferreira. O original pode ser consultado
aqui .
Então, cá vai:
“Parlamento mais bonito - As excelentíssimas senhoras deputadasSão cerca de 10 por cento dos 52 deputados as senhoras que se sentam no Parlamento açoriano, como excelentíssimas representantes dos açorianos democraticamente eleitas. Ao todo são dez as deputadas regionais.
» Pedro Ferreira (aU, na ALRAA) [O que significam estas siglas? Somos obrigados a saber?]
Ora, logo a começar, somos confrontados com um português de tão alto nível, “representantes dos açorianos democraticamente eleitas”, que até relega para segundo plano um “democraticamente eleitas” completamente inócuo. Além disso, e apesar dos nossos limitados conhecimentos ao nível da matemática, estamos em crer que dez por cento de cinquenta e dois são cinco (arredondando por defeito); como na ALRAA existem dez deputadas, num total de cinquenta e dois, isso corresponderá a cerca de vinte por cento… apenas o dobro. Valha-nos o “excelentíssimas”, sem dúvida confortante. Mas continuemos:
São cerca de 10 por cento dos 52 deputados as senhoras que se sentam no Parlamento açoriano, como excelentíssimas representantes dos açorianos democraticamente eleitas. Ao todo são dez as deputadas regionais.
Aqui, temos a sensação de já ter lido isto em qualquer lado… e rapidamente percebemos que o subtítulo da notícia corresponde, num exercício exemplar de imaginação, pleno de utilidade, ao primeiro parágrafo da mesma. Agora, sim, vem material novo:
Todas falam de tudo, mas umas mais do que outras.Que podemos dizer desta observação? O silêncio alonga-se depois de lermos a continuação, em jeito de explicação (atente-se à colocação das vírgulas!):
Isto não quer dizer que, umas sejam menos do que outras, mas sim, que umas têm temáticas mais especializadas e abordam, portanto, certas e determinadas matérias com mais conhecimento de causa.Portanto, não fosse o leitor pensar que houvesse desigualdade entre as deputadas (embora o autor não garanta que não haja, num momento complexo de relativização, que confunde os pensadores mais audazes), logo o jornalista se apressa a esclarecer que “umas têm temáticas especializadas”, não chegando porém a explicar ao leitor onde se adquirem temáticas, um conceito sem dúvida inovador, eventualmente útil em época natalícia. Preocupante, isso sim, é o facto de as deputadas em questão só “abordarem certas e determinadas matérias com mais conhecimento de causa”, o que significa que todo o restante universo de matérias (“certas e determinadas… nomeadamente … várias!”, como se diria no mais corrente humor em Portugal) está imune às abordagens das senhoras deputadas. Para terminar, ficamos a pensar exactamente qual o significado deste “abordam”: supostamente, seria “tocar com o bordo”… será isto? É que se for, ainda que poeticamente, é bem diferente de “analisam os assuntos em profundidade”... Sigamos.
Olhando para as bancadas dos partidos com assento parlamentar, o PS, fruto da maior maioria de sempre em quase 30 anos de Autonomia, dispõe de 31 deputados eleitos, sendo que oito são senhoras.
Ora, analisemos este trecho supondo uma antítese:
"Olhando para as bancadas dos partidos sem assento parlamentar, por sinal vazias, o partido X, fruto da menor minoria de quase sempre em quase 30 anos de Autonomia não dispõe de deputados, pelo que oito podiam ser mulheres."
Cruzes – canhoto!
Cláudia Cardoso, a gozar de licença de maternidade, ocupa um lugar de destaque na hierarquia da bancada socialista: é vice-presidente do Grupo Parlamentar.
Aqui, somos perseguidos pela dúvida se o lugar de destaque ocupado pela senhora deputada Cláudia Cardoso se deve ao facto de estar a gozar de licença de maternidade… além disso, licença de parto soaria bem melhor! De seguida, há um ponto parágrafo, pelo que, ingenuamente, somos levados a crer que haverá uma mudança significativa de assunto. Porém:
A ex-secretária regional Adjunta da Presidência, (já reincidente nestas andanças, foi eleita, pela primeira vez, em 1996, primeiro mandato socialista à frente dos destinos da Região) está actualmente a ser substituída por Fernanda Trindade, uma terceirense de alma e coração, mas não de naturalidade, que se estreia nas lides parlamentares afirmando, convictamente, que “esta é uma forma que tenho de ajudar quem mais precisa, nomeadamente os doentes”.
A recorrente falta de rigor literário na colocação das vírgulas, a ausência parcial de maiúsculas na designação do cargo oficial, a utilização de palavras como “andanças” num texto jornalístico, o pleonasmo implícito em “mandato” e “à frente dos destinos”, a “não-naturalidade terceirense da senhora, ou o facto de “afirmar” já implicar firmeza, por definição, tornam a leitura destas frases um verdadeiro sacrifício intelectual. Valha-nos o altruísmo da senhora deputada, e suas preocupações sociais.
Outra das senhoras que ocupa lugar de enfoque é Fernanda Mendes. Aqui, a criatividade assume novas fronteiras, com a utilização de um “enfoque” verdadeiramente inventivo, certamente a acrescentar nas próximas edições de qualquer dicionário de português que se preze. Depois:
Antiga governante açoriana, na área dos Assuntos Sociais, actualmente, para além das funções parlamentares, desempenha, igualmente, funções de Vice Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA).
Seria a senhora (governante) em questão Secretária Regional? Directora de um Centro de Saúde? A dúvida persiste! É sempre bom saber que as funções são desempenhadas actual e igualmente. E, finalmente somos informados de que “Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores” tem como sigla “ALRAA” – mais vale tarde que nunca. Não falemos sequer da deselegância confusa entre orações!
Mas o pior ainda estava para vir, num novo parágrafo que, como já sabemos, não significa mudança significativa de nada, a não ser de linha:
Com o sotaque proveniente do nosso país irmão – o Brasil – esta senhora é, quase que o podemos afirmar uma “lady”, que intervêm essencialmente quando os debates são sobre saúde (ou não fosse esta a sua especialidade até por profissão).O sotaque terá sido, eventualmente, encomendado? Porém, mesmo grave é a possibilidade de a senhora deputada não ser uma “lady”, pois o autor “quase que pode afirmar”… quase. Depois, “intervêm essencialmente”… eles? Elas? Sobre os debates, a saúde, de quem, ou de quê, a especialidade (vírgula), a profissão… quem quiser que averigúe.
Agora, uma grande revelação:
Mas, na bancada do partido da “rosa” sentam-se, ainda, senhoras, de suas graças, Piedade Lalanda, Lubélia Chaves, Catarina Furtado, Ana Isabel Moniz, Marina Matos e Nélia Amaral.
Afinal, só agora é que se sentam senhoras na «bancada do partido da “rosa”»!! Um verdadeiro volte-face!! Será a Rosa outra senhora?
Mais uma série de parágrafos, num rol de delícias literárias:
Esta última é a única resistente às caras novas saídas das recentes eleições Regionais. É também, a deputada socialista que mais intervêm para abordar as políticas da Solidariedade e Segurança Social.
Deste, conclui-se que:
- Provavelmente houve um ataque de “caras novas”, que saíu não se sabe bem de onde, e que causou baixas de relevo;
- O senhor Pedro Ferreira não sabe, definitivamente, colocar vírgulas;
- O mesmo senhor não sabe escrever o presente do indicativo do verbo “intervir” na terceira pessoa do singular.
- O senhor referido possui, ou tem acesso a uma estatística de intervenções (especializadas em “abordagens”), organizada por políticas … seja lá o que isso quer dizer. Também pode ocorrer que a senhora deputada aborde (!) as políticas da Solidariedade e da Segurança Social na rua, ao passar por elas. Mas ao de leve, apenas.
E porque este texto já vai longo mas o chorrilho de anedotas continua, destacarei apenas mais alguns momentos dignos de destaque, e incluirei aqui e ali alguns apontamentos, deixando, ainda assim, muita coisa bonita e interessante por descobrir:
Consigo, está Piedade Lalanda, etnóloga de formação. Lubélia Chaves, vai andando neste mundo de “feras feridas”, para já, numa fase de aprendizagem [há quem tenha de pagar a sua formação, há quem receba para se formar]
… mas não lhe façam chegar a mostarda ao nariz. [parágrafo]
Como ela, Catarina Furtado, outra estreante. Ana Isabel Moniz é a que mais tem intervido em sede parlamentar [o admirável mundo da estatística objectiva]
. As áreas ligadas turismo são o seu forte, e não se tem safado mal. Por fim, Mariana Matos, eleita também [quem foi a outra?]
, por São Miguel, proveniente da rejuvenescida Juventude Socialista. Da outra face da moeda, isto é, na oposição duas senhoras, com - permitam a expressão - “pelo na venta” [nesta altura do campeonato já permitimos tudo!].
Maria José Duarte, social-democrata eleita pelo maior círculo [será o Círculo de Leitores?]
dos Açores, é enfermeira de profissão. Carla Bretão, é economista, e tem a seu cuidado [numa estufa? Numa gaiola?]
as respostas para dar à maioria [não deveria ser a maioria a dar respostas à oposição?]
sobre o sector terciário, respectivamente comércio e turismo, mas, também, os problemas da sua terra, com destaque para as térmitas que infestam muitos açorianos [!!]
com dores de cabeça. Todas com, uma média de idade a rondar os 30, trinta e picos anos, e sem esquecer a outra senhora que se senta no Parlamento, mas noutras funções: Ana Paula Marques (secretária regional do Ambiente e do Mar, que tem conseguido levar como pretende a oposição, salvo raras excepções).“Muito bem!” [?]
A maioria dos leitores pensará, neste momento, duas ou três coisas [a capacidade de adivinhação deste senhor deixa-nos perplexos, bem como a sua inigualável capacidade de análise – atente-se às questões formuladas de seguida]:
Será que são muitas ou ainda insuficientes as mulheres no Parlamento?;
Que intenções as moveu a entrar num mundo ainda muito dominado pelos homens?;
Será que estão apenas agarradas ao chamado, popularmente, “tacho”?...
Pois, resposta existe para todas estas perguntas. Primeiro: Para já, são as que conseguiram vingar num mundo, por vezes, fedorento como é o da política, mas também fruto da emancipação do sexo e da abertura social [aqui, o autor revela os seus profundos dotes de sociólogo
]; segundo: as intenções são as melhores, verificando-se, com frequência, que elas têm, mais sentido de legislador do que de político, mais sensibilidade para debater os problemas, envolvem-se relativamente mais nos assuntos em discussão, enfim… não é defeito, é feitio nos homens; por fim, os “tachos”: pois, penso que tudo estará respondido. Mas se dúvidas existem, apresenta-se mais um exemplo. Se a maioria dos másculos homens destas ilhas pensa que as senhoras deputadas são as eternas defensoras dos pobres e desprotegidos, coitadinhos e excluídos, então enganam-se [maioria – engana(m)-se
(!)]. No plenário parlamentar, que terminou na passada quinta-feira, assistimos a um debate sobre cultura, mais concretamente as nossas tradições culturais, nomeadamente as bandas filarmónicas, os grupos folclóricos, por aí fora…, despoletado por uma senhora [neste caso, não restarão dúvidas quanto à idoneidade da senhora],
a social-democrata Maria José Duarte.Se se abordam as térmitas, tema manifestamente técnico, o dedo de Carla Bretão é o primeiro a subir para pedir o uso da palavra. Mas e se o assunto for turismo [?]
e sistemas de incentivos ou políticas do Governo neste domínio, Ana Isabel Moniz, não se alheia do debate. Como vemos, para além da beleza que o sexo feminino impõe por onde passa (o que nos pode levar a afirmar que o Parlamento está mais bonito, não me interpretem mal), podemos também começar a pensar se, quando elas já nos vão dizendo que não são “o sexo fraco”, têm ou não razão. Enfim, não vamos entrar nesta discussão, até porque o limite de linhas é curto. Todavia, fica o retrato, mesmo que muito superficial. As mulheres estão aí e vieram para vingar.
Pela sua técnica literária e jornalística, pelo seu rigor, pelo seu espírito crítico, pela utilidade da sua notícia, por tudo isto e o mais que não dissemos … ah, senhor Pedro Ferreira… tenha dó de nós. Fale com o seu editor, peça-lhe para estar mais atento. Todos beneficiaremos!